O mundo está rápido demais para o nosso cérebro?
O mundo está girando muito rápido…o excesso de afazeres nos distancia cada vez mais dos prazeres naturais do silêncio, observação calma e “dolce far niente” (prazer de não fazer nada). A sobrecarga sensorial tem se tornado uma das causas silenciosas de ansiedade, cansaço e comer emocional. Em um mundo de notificações, excesso de tarefas e estimulação constante, muitas pessoas vivem a sensação de estar permanentemente desreguladas.
“Não é a falta de força que nos desorganiza, mas a incapacidade de encontrar repouso em meio ao excesso.” (Sêneca)
O dia a dia desregulado de boa parte das pessoas passa pela agitação de pensamentos;
Tarefa por fazer.
Atraso de entrega.
Falta de apreciação.
Um aperto no peito.
O corpo que pesa.
A mente que acelera.
O humor oscila.
A respiração falha.
A cabeça dói.
O sono falha.
A agenda nunca fecha, o nunca corpo paga o preço, sua alma se desconecta e confusão toma conta.
E, no fim do dia, é no sofá e comida que um pequeno conforto é alcançado.
A explicação mais comum para este fenômeno normalmente é atribuída à ansiedade, estresse ou falta de disciplina e até mesmo fraqueza.
O que é sobrecarga sensorial?
O que muitos não enxergam é que antes da sobrecarga de estresse existe uma sobrecarga silenciosa, a sensorial.
Quando o nosso sistema fica saturado de estímulos, o controle de autorregulação fica prejudicado. E quando isso acontece, o cérebro procura um alívio rápido e o comportamento alimentar entra como recurso.
Um estudo conduzido em dezembro de 2025 no Scientific Reports, olha para um traço chamado Sensory Processing Sensitivity (SPS), a sensibilidade no processamento de estímulos do ambiente e para um dos seus maiores desafios: overstimulation, a sobrecarga sensorial.
A idéia do estudo era respondes durante uma semana, as pessoas perguntas rápidas 5 vezes por dia, no meio da vida acontecendo e avaliar oscilações de sobrecarga e gatilhos do momento: presença de outras pessoas, estímulos auditivos e visuais, fadiga e humor.
Resultado foi bastante interessante e mostrou que sobrecarga aumentou do fim da tarde, com pico no começo da noite, foi maior na presença de outras pessoas.
Pessoas mais sensíveis relataram mais sobrecarga quando sons e estímulos visuais eram percebidos como desagradáveis, quando estavam cansadas ou em humor negativo, mas relataram menos sobrecarga quando os estímulos eram percebidos como agradáveis, quando havia menos fadiga e humor positivo no momento.
Isso mostra um mecanismo, um padrão claro, a sobrecarga sensorial não é frescura. É um estado do corpo e quando o nível de estímulo sobe, o controle é prejudicado.
Por que a sobrecarga leva ao comer emocional?
Nestes momento a sobrecarga gera apagamento ou distanciamento do raciocínio e consciência e procura alívio rápido.
Se o fim da tarde é o horário em que a carga excessiva do dia é percebida, é também o horário em que muita gente desaba no sofá e no controle de suas escolhas alimentares.
Cansado demais para treinar ou se movimentar, irritabilidade, impaciência, Exaustão para acompanhar uma história, um livro….levam o dedo ao rolar de tela infinito.
O mesmo mecanismo se aplica à escolha do que comer, a névoa mental é tão grande que não se acessa a área de escolhas conscientes, perde-se o comer para nutrir e salva-se a comida para preencher, o comer emocional, o comer automático, o comer para desligar.
Não porque falta disciplina ou força de vontade mas simplesmente porque o sistema está sobrecarregado, as energias estão sendo drenadas e perdidas ao longo do dia, sua bateria de energia está à beira da falência.
Então quando chega alguém com a queixa de que sabe o que fazer mas não consegue colocar em prática a pergunta não é sobre o “por que você está comendo assim”, mas “como está o seu ambiente sensorial ao longo do dia”, “quanto de energia está sendo perdida e fadiga acumulada”, “que tipo de estímulo você está tentando abafar”.
Ansiedade, irritabilidade e fadiga: sinais de um sistema em excesso
Um ambiente sensorialmente agressivo, somado a cansaço crônico, vira fator de risco. Para humor. Para fadiga extrema (burnout) e para padrões alimentares de alívio.
A história de Helena: quando o problema não era falta de disciplina
Helena tem 27 anos, ainda muito jovem para o relato pesado que transportava, ela me procurou com as queixas de comer demais no final do dia, com ataques de compulsão e falta de percepção do que estava comendo. Vinha ganhando peso extra no corpo que ela não entendia e uma sensação de cansaço extremo – burnout, ela não tinha mais energia e não melhorava nem com descanso, inclusive existiam dias em que estes momentos agravavam sua ansiedade e geravam mais crises de comer para tentar desligar, na verdade, para ocupar o lugar dos pensamentos que traziam a ansiedade.
O que a incomodava era sua aparência, parecia estar desconectada do corpo, percebia que precisava de um plano para escolher melhor.
Mas, paradoxalmente ela semanalmente ela punha um plano novo em prática, a dieta da segunda, um treino culpado sempre sendo retomado sem evolução, o apoio emocional nos suplementos, café, e lista de produtividade.
Será que ela precisava mesmo de um novo plano?
Dia a dia os itens da semana falhavam e iam se acumulando e com eles vinham a culpa, crítica, julgamento e cansaço. A compensação tornava-se a única estratégia visível para contornar a situação.
Semanas se passavam e tudo se cumulava em crises mais agudas de irritação, a explosão de mau humor, um aperto no peito…Ela chamava de pânico, mas era mesmo?
Ela precisava de alívio rápido, negociava brevemente com sua consciência e era na comida, que encontrava o conforto mais disponível.
Clinicamente poderia falar que sua alimentação era o “comer emocional, seu estado de humor era “ansiedade” e para seu trabalho daria o rótulo de “burnout”.
Mas não foi assim que conduzi. Não ofereci um plano alimentar, tão pouco suplementos e remédios de ansiedade… o que tinha para oferecer era uma conversa.
Helena era uma excelente profissional, dedicada em casa, claramente letrada, eu poderia criar um plano “perfeito” muito bonito no papel, ela saberia ler afinal…era só seguir.
Mas seu gargalo não era leitura, tão pouco a compreensão…porque ela não colocava em prática?
O verdadeiro problema não era a comida: era a saturação
A resposta é muito simples, e poucos exploram…sua questão era emocional, sensorial, situacional, organizacional e de contato, de entrega.
Como sempre, o olhar hesitante inicial era típico, mas algo dentro dela me permitiu entrar e quando paramos para mapear a sua rotina real, apareceu um padrão bastante claro e que organizou todos os pensamentos.
Helena, como a maioria das pessoas, passava o dia inteiro em um ambiente sensorialmente agressivo.
Era tela o tempo todo, notificações, toques e apitos, reuniões acumuladas, barulho constante, luz branca, luz forte, lista de tarefa interminável, múltiplas demandas…relacionamento social muitas vezes forçados e poucas vezes leve, obrigações e mais obrigações.
Poucas pausas…zero contato com o silêncio, com paz, com o natural
Ela não estava cansada somente, ela estava saturada.
Sem pausa, o corpo não encontrava momento para recuperação.
O corpo precisa de pausas para se autorregular
Mas afinal, isso não era o ser adulto?
Não…não precisa ser assim. A era da produtividade e cobrança veio com uma conta muito alta para pagar e por mais contraditório que possa parecer é no movimento de desacelerar que a produtividade e excelência crescem.
Conversando com ela mostrei para um exame de ecocardiograma…o que ela via ali?
A resposta não estava clara para aquela pessoa esgotada: mas a resposta era VIDA, o coração mostra como é a vida.
Altos e baixos…picos e nadires (ponto baixo) da vida, do dia, do momento…a vida é feita em oscilações de subida e descida, auges e recuperação, queda e retomada…quando estabiliza…não tem mais vida ali, surge aquele piiiiiiii do esgotamento do corpo, da retirada da alma.
Uma analogia simples fez Helena perder o contato consigo mesma… recobrada a consciência ela percebeu o que faltava, na verdade, que sobrava. Sobravam estímulos.
Como reduzir a sobrecarga sensorial no dia a dia
Quando estímulo é demais a mente fica mais reativa, o sono piora, a tolerância despenca, a ansiedade toma conta e o impulso é um alívio.
O que parecia “fome” era, na verdade, um pedido por desligar. O que parecia “falta de força de vontade e de organização era o corpo forçando uma pausa para sobreviver, as quedas no sofá nada mais eram que o descolamento com a realidade a tentativa silenciosa de diminuir o volume de estímulo.
Neste momento troquei a pergunta: “por que você acha está comendo assim?”.
Por algo inesperado como: Como é o seu ambiente (sensorial e emocional) ao longo do dia?”.
A conversa, o falar, permitir que os pensamentos saiam livremente, associando com a inconsciência era a primeira estratégia. A estrutura e mapeamento dos horários e gatilhos foram o segundo passo. Reprocessar momentos críticos ajudaram a tornar mais clara sua percepção e relacionamentos. Criamos foco, futuro, memórias…sem pressa, sem um schedule para ser cumprido…com a maior leveza que podemos querer, confiando num fluxo e em não gerar resistência, não provocar o paradoxo dos tempos.
Criamos micro estratégias de autorregulação bem aos poucos, atitudes simples no dia a dia que fizeram muita diferença e quando ela menos esperava seu corpo respondia, ela estava mais animada, mais energizada, a vida no auge da juventude voltava a brotar…e nada disso tinha a ver só com nutrição.
Foi o mundo sensorial que mudou, foi a sobrecarga externa que abafou, a pulsação dos sentidos internos que se fizeram ouvir.
Pausas sem tela mas com presença, redução de ruídos, notificações desligadas, micropausas de alongamento e movimentação, uso de cheiro agradável na mesa, recursos musicais, danças no meio do dia, durante uma tarefa trouxeram graça e divertimento no escritório…o estímulo de luzes mais baixas, intervalo curtos de silêncio, rituais em casa, rituais de transição entre trabalho e casa, contato com natureza, mesmo que só observação… relacionamentos brandos… cultivamos o vazio essencial, o vazio útil.
Sobre a comida, ela veio como plano de suporte energético, sem dieta, sem regimes rigorosos, sem comida glamurosa.
Sua rotina de trabalho não mudou, o que mudou foi como ela se organizava, o que priorizava e o valor interno que dava para as atividades. Helena evoluiu chegava em casa sem travar guerra com seu corpo, sem urgências.
Talvez você não esteja sem força de vontade. Talvez esteja saturada.
Seu sono estava melhor, o corpo tinha ganhado tempo para reparação. Aquele pânico, afinal não era psiquiátrico, era mesmo um corpo em curto circuito buscando ser desconectado.
Enquanto o sistema opera dentro dos seus limites, ele não precisa buscar alívio imediato.
Helena chegou pedindo solução para o comer emocional, a ansiedade e o emagrecimento. Mas saiu com algo mais valioso: a compreensão de que não estava fracassando, estava sobrecarregada.
Descobriu que, muitas vezes, o corpo não pede mais disciplina, mais produtividade ou mais controle. Ele pede pausas, silêncio, recuperação e espaço para voltar a sentir.
Talvez você também não esteja sem força de vontade. Talvez esteja tentando sobreviver a um excesso de estímulos que o seu sistema não consegue mais sustentar.
Antes de iniciar uma nova dieta, um novo planejamento ou mais uma tentativa de reorganizar a vida, talvez valha uma pergunta:
Quanto da sua energia está sendo consumida antes mesmo de você perceber?
Porque o verdadeiro plano não se constrói apenas no papel. Ele se constrói na prática , incluída na vida que consegue, novamente, respirar.
Se você se sente constantemente cansada, ansiosa, desconectada do próprio corpo ou percebe que a comida se tornou uma forma de aliviar o excesso do dia, talvez seja hora de olhar para além dos sintomas e compreender o que está mantendo seu sistema em sobrecarga.
Sinais de sobrecarga sensorial que você não deve ignorar
Agende uma conversa e descubra o que está por trás da sensação de estar permanentemente desregulada.
Conteúdo elaborado por Dea Alterio: Psicanalista, Terapeuta e Nutricionista Homeopata Integrativa, com atuação em ansiedade, compulsão alimentar, transtornos alimentares e reprogramação emocional por neuropráticas.
Atendimento online em São Paulo e para todo o Brasil.


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