Quinta-feira, dia comum de junho, enquanto eu me preparava para os atendimentos do dia, ouvi uma discussão no corredor.

Ao abrir a porta lá estava a família que iria conversar…. os pais que discutiam preocupados e um adolescente com fones de ouvido, tentando ignorá-los.

Nos acomodamos todos e começamos a conversa para entender qual o motivo daquela visita, claramente motivada pelos pais. Logo que iniciaram as conversas já podia-se notar o desconforto do rapaz. A queixa era a seguinte: ele é chato para comer. Só come o que é amarelo e mesmo assim é seletivo. Achei que era uma fase, mas só piora. Está muito magro, mas com barriga estufada. Não tem energia e passa os dias dormindo.

Logo consegui compreender o que estava acontecendo, se tratava de uma preocupação de saúde por parte dos pais e uma recusa alimentar grave por parte do menino, que chamarei de B. O diagnóstico clínico parecia secundário naquele momento, eles não precisavam de mais um rótulo, eles não precisavam de uma marca, mas sim de uma solução. B estava visivelmente emagrecido e sem energia, isso precisava ser revertido mas não às custas de mais emoções negativas.

As causas para sua conduta iríamos investigar aos poucos, paciência era a única coisa que eu poderia pedir naquele momento. Não se tratava de ter uma estratégia, um plano montado…o que precisava era ouvir as preocupações dos pais e depois conversar com B.

Logo em nosso primeiro encontro orientei que as demais conversas seriam privadas, que o rapaz teria o espaço somente para ele com total garantia de sigilo. Ao pedir aos pais que nos deixassem a sós eu sabia que teria que conquistar a confiança deles, mas a de B. estava garantida, seu olhar já me trazia uma sensação de alívio.

Algum tempo depois de nossa conversa, seu cansaço e tensão por um suposto julgamento começaram a aparecer.

O que para a família parecia ser um caso sobre alimentação juvenil, na verdade não era, tratava-se mais de uma questão emocional, mais de medo do que de paladar.  

A alimentação não trata somente de comida e de paladar, ela é sensorial, mexe com as emoções, tem um contexto social como pano de fundo, ela influencia e sofre influência do corpo, da idade, do meio em que se vive.

Para algumas pessoas essa relação vira tensão, sofrimento e até isolamento.

Estudos recentes investigaram pontos importantes no transtorno de recusa, evitação e/ou restrição alimentar (TARE), a sensibilidade sensorial e os sentimentos de nojo e medo ao comer.

O resultado foi bem interessante, o sentimento de nojo (repulsa) alimentar aparecia fortemente em crianças e adultos com alta sensibilidade alimentar. Já quando a aversão alimentar era mais frequente, o sentimento de medo estava mais preponderante.

Ou seja, o simples fato de dizer que não gosta da comida pode não ser uma questão simplista de paladar, mas sim um medo, uma reação corporal, visceral que surge quando a comida se apresenta, é mais uma questão de proteção que de alimentação.

Neste contexto, precisamos lembrar que o ambiente e as pessoas influenciam muito a refeição e, quanto maior a insistência e pressão, maior a insegurança. Ao invés de alimentar o corpo, só aumenta a ameaça sobre ele.

Uma sugestão nova, nem era considerada, ele não apenas recusava, seu corpo estremecia, o cheiro enjoava, e se houvesse insistência as lágrimas corriam…com o passar dos anos a angústia e irritação sentavam à mesa.

O caos no horário das refeições já era padrão, assim como a lista de alimentos de B, previsível e, sempre com as mesmas características de preparo, textura e aparência.

A família toda arrepiava quando chegava o horário da fome. Tinham aprendido a negociar, recompensar e até pressionar, mas com o passar do tempo este momento tinha se tornado um campo de batalha sem previsão de trégua.

A alimentação de todos já não era prazerosa, B já sentia desconforto antes mesmo de comer, a ansiedade batia forte ao chiado da panela. Passeios em restaurantes ou eventos familiares eram raros, a comida era monótona, brigas e discussões recorrentes….o conflito era certo.

Quanto mais eu ouvia as histórias da mesa, mais era possível identificar a exaustão daquela família. Não era somente o prato que estava seletivo, mas as emoções e energia também estavam bastante restritas.

A tristeza de B era coerente com a preocupação dos pais…ele não queria ser difícil, só queria se proteger. A experiência corporal que vivenciava era real, para ele o momento de comer era um martírio físico.

Ele não precisava aprender a comer, a família não precisava de técnicas culinárias, ele precisava era entender sua insegurança e reprocessar seu medo.

A cozinha precisava deixar de ser uma trincheira, teria que ser divertida. A comida teria que ampliar as tonalidades, deixar de ser preto e branco, boa ou ruim, segura ou perigosa…o medo precisava deixar o volante.e sentar no banco de carona. Mas como tudo isso seria possível?

Conscientemente não conseguiríamos, então deixamos seus sentimentos mais profundos ditarem a direção.

Enquanto revisitávamos suas memórias, entre risadas e lágrimas as relações foram sendo traçadas, pessoas surgiam e desapareciam, sua memória trazia nuances de texturas e algumas perdas, os cheiros se confundiam com lembranças, aquela mistura se sentimentos e visões não eram à toa. Elas construíam a verdadeira relação de B com a comida.

Certo dia o luto pela perda de um cachorro em sua infância veio à tona e ele estava relacionado à carne. B lembrou que enquanto chorava  por seu amigo, seus pais tentavam consolar colocando mais um pedaço na sua boca. Ele não podia digerir nem sua perda, nem a comida. A sensação de peso agora era física e emocional e a carne tinha se tornado um alimento de tristeza.

Mais relações como esta foram sendo traçadas, algumas vividas, outras imaginadas, mas todas tinham um porquê.

O que ele via, sentia, ou pensava ao ver comida estava sendo levado em consideração. Uma das relações mais fortes que ele tinha em seu interior era com um medo de escassez implantado após a narrativa de uma cena de fome e falta do que comer, encenada como justificativa para não se deixar comida no prato. Aquela história típica de infância tinha se transformado em um mecanismo de defesa…ele comia pouco e bem restrito para não passar pela experiência de querer mais ou algo diferente e não poder/ter.

Pouco a pouco fomos reconstruindo o lugar seguro, de compreensão, de tentativas sem julgamento, de escuta do corpo, de visão do futuro. Assim como todo sentimento tem uma razão, sua seletividade também tinha.


Com um pouco de calma e tempo B transformou a angústia da família do que comer em uma experiência menos difícil. O medo foi sendo desconstruído, o interesse começou a dar as caras, a segurança ganhou lugar à mesa e a restrição não custava mais emocionalmente e pela primeira vez em muitos anos, comer deixou de ser ameaça.


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