A caneta que muda a conversa sobre emagrecimento.

“Com ela funcionou, porque comigo não?”

Uma caneta pode mudar destinos. Mas essa não muda todos da mesma forma.

Uma cena comum vem se repetindo no consultório, pessoas usando a mesma medicação, a caneta emagrecedora, mas com respostas completamente diferentes e um incômodo em comum: a dificuldade na perda de peso.
Artigos atualizados dão luz ao problema que vem sendo recorrente a culpa imposta pela falha no emagrecimento.

Estávamos em um dia quente, Ana chegou já fazendo uso da caneta a 2 meses. No início algum peso foi perdido, mas ela tinha entrado num platô. Para muito além do peso, o que se percebia em sua fala era mágoa, ela estava angustiada.

Seu comportamento era simples e cruel, ela se comparava.

Ela já tinha relatos de conhecidos que emagreceram muito rápido, outros que embora mais lentos, perderam muito peso….mas ela não…seu corpo estava parado e o que só aumentava era a ansiedade e confusão.

A auto culpa pela falha era evidente, ela se julgava o tempo todo por estar fazendo escolhas erradas, por ser ela um problema maior para seu corpo não responder.

Ela vivia em um tribunal interno permanente com uma sentença grave, cortar mais, restringir ao limite, pular horários, treinar à exaustão…e tudo o que ela sentia era frustração, cansaço e esgotamento.

Quando a exaustão entra em cena, o controle interno começa a falhar e os riscos aumentam.

Sua fome não era mais física. Ela comia em busca de alívio, de uma descarga emocional.

E, então a roda girava: ela comia para ter um pouco de prazer e aliviar sua culpa, mas se arrependia e buscava compensação no dia seguinte. A ansiedade aumentava e a mágoa de si mesma surgia.

Foi aí que a terapia tornou-se uma ferramenta. A caneta era uma das variáveis da equação, a variabilidade biológica (e real), outra e a terceira era o comportamento emocional.

Mas porque isso acontecia? Existe variabilidade real de resposta aos agonistas de hormônio GLP-1, e parte dessa variabilidade tem base genética. Uma variante no receptor hormonal está associada a maior eficácia, com mais perda de peso…e isso é real.

Mas não deveria significar que genética é predestinação, afinal já evoluímos bastante para saber que o corpo é influenciado pelo meio em que está vivendo.

Então para aliviar a carga emocional vinculada ao tratamento, o que tínhamos que mudar era a maneira de se conduzir uma conversa.

A culpa auto imposta, o estresse sentido a tristeza da comparação negativa experimentada trazem ainda mais peso para um corpo que só queria ter sua carga aliviada.

A resposta diferente individual não é fraqueza. É um dado.
E dados clínicos servem para ajustar roteiros, não para alimentar o fracasso.

O ajuste real não estava mais no prato, mas nos seus pensamentos.

Estratégias de regulação emocional ajudam a reconectar a pessoa ao corpo real, não ao corpo idealizado

Qual era o seu ideal e a origem deste, existia um norte ou era pura comparação? Quais ajustes de rotina e quais as expectativas que poderiam estar distorcidas? Quais seus ganhos e perdas reais, qual o balanço geral mínimo necessário para não se perder no processo?

Enquanto caminhávamos em reflexões chegamos a resposta esperada, não era fracasso moral, era só um caminho diferente, um trajeto sem urgências, um caminho em que ansiedade diminuía e o controle voltava para suas mãos.

Sua emoção estava agora alinhada, ela entendeu que não precisava de um corpo igual ao de todo mundo, ela podia ter um corpo seu, com sua identidade, com as marcas da sua trajetória.

Ela não deixou o tratamento hormonal, ela permitiu que suas sombras encontrassem luz, agora ela assinava seu corpo com a caneta, ela havia riscado sua sentença.

ADMINISTRANDO A ANSIEDADE E COMPULSÃO ALIMENTAR

Dra. Andrea Alterio é nutricionista – psicanalista e homeopata, especialista em nutrição clínica – funcional e dietoterapia chinesa (e mais 7 especializações), com mestrado em nutrição humana e comportamental, psicanálise clínica e homeopata. Possui formações no Brasil e Itália em práticas integrativas em saúde.

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4 respostas a “A caneta que trouxe a culpa para a mesa”

  1. Avatar de Sheila1394
    Sheila1394

    Nunca tinha pensado que meu sofrimento não era só sobre peso

  2. Avatar de Emilie1597
    Emilie1597

    Encontrei um blog que gostei de ler, faz parar e pensar na própria vida. Terminei pensando bastante depois

  3. Avatar de Cora4583
    Cora4583

    Gostei da forma simples e direta de explicar algo tão importante. Faz muito sentido

  4. Avatar de Lily2971
    Lily2971

    Me identifiquei muito com várias partes. Às vezes a gente vive no automático e nem percebe o que está sentindo

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